
Em matéria da Billboard BR, descobri que Amanda Magalhães (click e acesse o site oficial desta artista multi-linguagens) usa o termo memixes – fusão de meme e remix – pra se referir a uma série de trampos que ela tem jogado nas redes sociais.
Nestes trabalhos, ela utiliza samples de falas de personalidades públicas (tão díspares quanto Luana Piovani e Flávio Bolsonaro) para, com a sagacidade de uma DJ bem-humorada e peralta, criar loops e recortes muito afinados a uma cibercultura movida a memética, imediatismo, atenção flutuante e a onipresente “cultura da influência” (alvo de um debate ultra-pertinente de Tiburi, Sibilia e MC Katu Mirim no Filosofia Pop).
O próprio presidente Lula torna-se MC em um desses memixes da Amanda, em uma mordaz crítica das atitudes vende-pátria dos filhos de Jair Bolsonaro, artífices do Tarifaço, ambos foragidos nos EUA no fim de 2026 e que imploram ao Donald Trump que defenda seu papai (a pérola memixer de Magalhães foi parar em nossa coletânea “Lulastê”, que tem as matérias-primas sônicas para o documentário em elaboração d’A Casa de Vidro):

A prática do memix deixa marcas também no inovador álbum Era Uma Vez O Amanhã, cujo tecido sônico contêm fios entremeados que incluem as vozes de Ailton Krenak, Maria Homem, Aníbal Quijano, além de vozes digitais geradas por I.A.
Em 10 faixas autorais, a cantora, compositora e atriz nascida no Rio de Janeiro em 1991 deu um salto quântico em sua carreira. No terceiro álbum de estúdio, saltou rumo a um grau inédito de politização ao mesmo tempo que fez explodir por todo lado de sua obra o sarcasmo, a crítica cáustica da sociedade contemporânea, “denunciando o capitalismo colonial global” , como enfatizou esta excelente matéria em Pretessências.
O videoclipe de “Eu Quero Likes” parece um comentário mordaz e irônico do pensamento de Paula Sibilia sobre o Show do Eu na sociedade hiperconectada. A voz infantil que entoa o refrão evoca uma espécie de infantilização geral pela via das microdoses de dopamina. Amanda navega nas marés desta cibercultura da hiper-exposição e da lacração, mas com rara verve crítica. Uma crítica cáustica, dançada, rapeada. Chama a crew para coreografias impressionantes enquanto solta o verbo veloz em versos perspicazes como:
Eu ouço o plim, plim da notificação
Concordo com os termos e aceito a condição
Tenho o login, vícios e clichês
Arroba quero dopamina_123
Você tá vendo que eu tô existindo?
Olha pra mim
Arrume-se comigo para a guerra no Irã
Faça alguma coisa insana pra deixar sua mente sã
Minha dose preferida é de ilusão pela manhã
TikTok, Instagram, viu? Filosofia vã
Tela iluminada, vida monitorada
Todo mundo opinando, num efeito manada
Informação tá na mão, alienação tá em alta
Mente conectada, hiperestimulada
Eu pensei que eu tinha escolha
Mas você vive numa bolha
E me diga aí, doutora
A ansiedade quer que eu morra
(Click) eu quero likes

Formada em Artes Dramáticas pela ECA-USP, Amanda atua na série de sci-fi brasileira 3%, produzida pela Netflix. Seu pai é o fundador da Banda Black Rio e sua mãe era backing vocal da Baby Consuelo (Novos Baianos).
Em tracks como “Oração ao Capital”, “A Máquina e o Homem”, ela vai demolindo ludicamente o capitalismo. Contadora de histórias sci-fi, constrói em “Ciborgue do Sertão” uma microdistopia nordestina. Um Bacurauzinho inteiro coube em 4 minutos de rock. Atenta a tudo, fustiga a Escala 6 pra 1 e a neo-escravização, entoando o grudento refrão, de ironia encharcado: “é o lema do patrão, é o lema do patrão: “só não gosta do chicote quem não tem ele na mão”.
A artista também se destaca pelos duetos e colabs de alto calibre com Liniker, Rincon Sapiência e – no ato final do álbum de 2026 – Chico César.
Amanda Magalhães teve uma ascensão formidável para tornar-se em 2026 uma das mais expressivas, inteligentes e sagazes artistas brasileiras. Alça-se à companhia de tantas musas como Flaira, Linhares, Fialho, Moreno, Ceumar, Strassacapa, nos ápices da MPB contemporânea feita por mulheres num dos países de mais diversa e encantatória musicalidade neste planeta. Amanda nos ensina as artes de viver num planeta danificado (citando aqui Anna Tsing) que exigem também a arte de despencar no abismo com paraquedas coloridos (para citar aqui minha fusão de Ailton Krenak, Mauro Zag e Diego Mascate) e o aprendizado dos comos da arte desafiadora que é “amar no fim do mundo”. É assim que finda Era Uma Vez no Amanhã, certamente um dos discos mais legais lançados no mundo em 2026 e ótima trilha sonora pro júbilo trágico da VIRADA.
Se tudo tá desmoronando e parece que o futuro já era, nada disso nos impedirá de sermos arteiros, irreverentes, transfigurando este desmoronamento com beleza, graça e riso – cantantes-dançantes no olho turbulento do fuzuê.
Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro
7 de Novembro de 2026
Publicado em: 07/11/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia